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domingo, 8 de junho de 2014

O sexo sempre é culpável? Notas sobre prazeres, perigos e fissuras na sexualidade - Maria Elvira Díaz-Benítez

Maria Elvira Díaz-Benítez é professora de Antropologia Social no Museu Nacional/UFRJ. Dedica-se ao estudo de diversos temas ligados à sexualidade, pesquisando temas como “Corpo e sexo bizarros”, identidade sexual, além de articulações entre raça, classe, gênero, corpos e sexualidade. Entre os livros que publicou, destacam-se Nas redes do sexo: Os bastidores do pornô brasileiro (2010) e Prazeres dissidentes (2009), com C. Figari. As notas de rodapé deste texto estão disponíveis no blog da Folha.


No dia que Antonio Kerstenetzky me convidou para escrever uma reflexão para a Folha do Gragoatá eu acabava de receber uma mensagem de minha amiga Berenice Bento pelo Facebook. Ela me dizia: você viu isso? E adicionava o link que levava a um depoimento da ex-atriz pornô norte-americana Shelley Lubben “Roxy”:  http://bit.ly/1blAckX.
Ao longo desse dia a mesma notícia passou a ser compartilhada por diversas pessoas na rede e um grande número de comentários veio à tona. A maioria deles condenava a indústria pornográfica por ser um mercado que permite (e até promove) o estupro das mulheres. Nisso havia um consenso: o pornô é ruim.  Houve, contudo, um comentário dissidente: uma atriz brasileira que se desempenhou ao redor de cinco anos na indústria e afirmou nunca ter sido objeto de abusos. Seu depoimento virou alvo de respostas do tipo “me engana que eu gosto” ou “acorda, menina, você foi abusada todo esse tempo e não quer aceitar”.  A julgar pelas reações, não havia dúvida de que ninguém ali acreditava na possibilidade de que uma mulher pudesse ter algum tipo de prazer ou de agência dentro desses mundos, pois a ideia da opressão feminina intrínseca nesse trabalho ocupava toda primazia no discurso do coletivo. 
Isso me fez lembrar as vezes que tenho sido interpelada em seminários e congressos quando tenho apresentado minha etnografia sobre o universo de produção de pornografia, acerca da “realidade” das mulheres. Elas gostam? O que elas acham sobre essa carreira? Como é que elas se relacionam moralmente com essa ocupação? Por que é que, realmente, elas ingressam? Grande parte de minha pesquisa foi dirigida a responder alguns desses interrogantes. Eu apresentei trajetórias onde a escolha das mulheres era evidente e onde a pornografia se apresentava como um meio para a realização de alguns projetos pessoais, ou, simplesmente, um meio de adquirir certos status sociais e estilos de vida associados à juventude, a boemia, o hedonismo numa dinâmica que denominei Ética do Instante. Nesses mundos, pude observar que as gramáticas do poder se apresentavam de maneiras flexíveis e o suficientemente complexas como para desafiar as noções básicas e estereotipadas de “mundos onde homens oprimem mulheres”.
Contudo, há um incómodo que me persegue e há um incómodo em algumas pessoas em relação a meus argumentos. Estaria eu colocando tanta ênfase no prazer e a escolha ao ponto de obliterar a possibilidade de, efetivamente, enxergar a violência que pode estar acompanhando certas práticas e representações? Como entender a denúncia da Roxy sem satanizar a indústria pornográfica e, ao mesmo tempo, sem acreditar que queixas como aquelas são falsas ou produto de mulheres arrependidas que encontraram os caminhos da “boa” moral e por isso empreendem cruzadas contra seu passado, como forma de redenção?
Esta é uma discussão de velha data que já protagonizou aquilo que ficou conhecido como sex wars. O sexo foi o culpável para o movimento feminista anti-pornográfico dos anos 70. Naquele momento, organizações como Women Against Pornography (WAP), Feminist Fighting Pornography, a Nacional Coalition Against Pornography, e a Women against violence in Pornography and Media atribuíram à pornografia as causas da violência contra as mulheres, os crimes de misoginia, a discriminação sexual e a propagação das desigualdades hierárquicas de gênero. Para eles, a submissão das mulheres se evidenciaria ao serem representadas em atos de humilhação, espancamentos, suplícios ou mostrando-as ajoelhadas fazendo sexo oral, sexo com animais ou em todo tipo de cenas onde cabia ao corpo feminino (ou efeminado, deve-se acrescentar) o lugar do violentado.
A década dos oitenta, por sua vez, trouxe novas reflexões teóricas surgidas de outros olhares feministas que criticaram a interpretação das anteriores. Antropólogas como Carol Vance, Gayle Rubin e Pat Califia estariam na cabeceira deste pensamento.  Para elas, as anti-pornografia ofereciam uma imagem simplificada do poder e uma visão rígida dos gêneros gerada no determinismo da relação dominador-dominado. A nova perspectiva desassocia a ideia da dominação e coerção como modelo único relativo à sexualidade, e criticaria as restrições ao comportamento sexual das mulheres que se colocaram nos posicionamentos das feministas radicais. Nesse feminismo pró-sex (onde o sexo não era culpável de antemão) corpo, pornografia e sexo poderiam ser lugares de resignificação política para mulheres e outras minorias sexuais, e o prazer virou objeto de reflexão, assim como as maneiras alternativas e as escolhas sexuais que levam a consegui-lo.  Em poucas palavras, esta postura abriu janelas preciosas para outras formas de interpretação do prazer, erotismo e escolha.
Contudo, um problema persistiria. Adiro-me à crítica feita pela antropóloga brasileira, Maria Filomena Gregori, de que há de fato na bibliografia do “contra-ataque” um não tratamento do problema da violência. Isto se deve, explica a autora, ao fato de que grande parte da literatura relativa a estas vertentes do feminismo se concentrou em enfatizar as práticas sexuais dentro do terreno do lesbianismo. Tomando como ponto de partida o prazer feminino nas relações de mulher a mulher, estes estudos dão por certo que o consentimento é garantido de antemão e a violência e o perigo são transpostos para a arena dos prazeres.
Quer dizer, o perigo não é (nem pode ser) tudo o que explique a sexualidade feminina, mas o prazer, por si só, tampouco dá conta. Embora Carol Vance argumentasse que o que caracteriza a vida sexual das mulheres é uma tensão – citando “na vida sexual das mulheres a tensão entre o perigo sexual e o prazer sexual é muito poderosa. A sexualidade é, por sua vez, um terreno de constrangimento, de repressão e perigo, e um terreno de exploração, prazer e atuação” – a ideia de tensão, nas análises, parecesse ter se convertido em uma fronteira divisória mais do que em uma linha que une, de modo intricado, duas pontas de um mesmo contínuo.
As imagens do vídeo apresentado por Roxy são francamente chocantes. E se me perguntassem se eu acredito que sejam reais, eu diria: sim.  Mas não quero com isto dizer que o que se esconde por trás da indústria pornográfica é o abuso e a violência como a ex-atriz argumenta e como foi intitulada a matéria. Pornografia não é sinônimo de maltrato e opressão contra a mulher. Contudo, a violência e o abuso podem vir a acontecer.  Como? Em meio daquilo que eu venho denominando de fissura. Fissuras seriam aqueles instantes de fronteira em que as emoções extrapolam o sentido dado de antemão às práticas, são momentos em que, em meio a um ato sexual, transpassa-se do consentimento ao abuso.  As fissuras acontecem durante as filmagens mesmas, naqueles instantes em que a pessoa (porque as fissuras não são exclusivas das mulheres) sente em sua própria pele um certo medo, angústia ou dor que não logrou prever no momento da negociação.  Ou seja, houve consentimento, mas a prática trouxe uma intensidade que não é possível de prever ou de antecipar e que rompe com o pacto empreendido com o outro e consigo mesmo, ocasionando emoções que evocam mais perigo do que prazer.  A fissura é a evidencia de que a prática extrapolou a expectativa da dor, é uma fenda onde o ato (ou representação do ato) se torna violência, embora logo a fissura possa se refazer por meio da sociabilidade ou a amizade que envolve a dinâmica de grupo nos sets de filmagem.
As fissuras no pornô acontecem dentro de um ambiente controlado: certos excessos nas práticas sexuais nessa indústria, especialmente aquelas que evocam fetiches de dor e humilhação, fazem alusão a descontrole controlado, para usar os termos de Featherstone. Trata-se de violências regradas onde são utilizadas técnicas corporais para suportar a dor física, mas não por isso é menos violento. A pornografia se baseia no exagero, e nesse tipo especifico de sexo duro se testam os limites e nesse testar se produzem fissuras.
Assim, fazer pornografia poderia ser entendido como um prazer perigoso tal como o entende Gregori.  Há práticas ali que podem ser interpretadas como empreendimentos de risco, nos termos da mesma autora.  São situações e negociações delicadas onde nada está resolvido nem garantido de antemão. Experiências que se bem implicam prazer, operam simultaneamente com tensores que podem ser transgressores dependendo da negociação, que por momentos podem ser paródicos e que potencialmente podem se aproximar do abuso.
Agora, no pornô nem sempre acontecem fissuras, e as fissuras não são exclusivas do pornô. Elas também podem vir a acontecer em nosso leito, nos encontros sexuais dos mais corriqueiros e longe do mercado. O mercado do sexo tampouco é culpável ou perigoso de antemão assim como as sexualidades que evocam afetos e amor romântico nem sempre são exclusivamente prazerosas.

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